Bastidores da prisão do piloto expõe estratégia da polícia em Congonhas

A prisão de um piloto da Latam é preso revelou um esquema de exploração sexual infantil baseado em vínculos familiares, pagamentos digitais e atuação coordenada, segundo a Polícia Civil.
piloto da Latam é preso por policiais civis durante operação no Aeroporto de Congonhas
Piloto da Latam é conduzido por agentes da Polícia Civil após prisão durante operação no Aeroporto de Congonhas, em São Paulo. Foto: Reprodução

A Polícia Civil de São Paulo deteve um suspeito na segunda-feira (09/02), durante o embarque de um voo no Aeroporto de Congonhas, na zona sul da capital, em uma ação que marcou a prisão do piloto investigado por integrar uma rede estruturada de exploração sexual infantil. O alvo principal do inquérito é um piloto da Latam, apontado pelos investigadores como figura central de um esquema mantido por anos com apoio de vínculos familiares e circulação recorrente de material ilícito.

Segundo a apuração, o piloto Sérgio Antônio Lopes, de 60 anos, teria atuado por pelo menos oito anos em uma estrutura organizada de exploração sexual de crianças e adolescentes, com divisão de funções e participação direta de responsáveis legais das vítimas. A investigação é conduzida pela 4ª Delegacia de Repressão à Pedofilia, sob coordenação do Departamento Estadual de Homicídios e de Proteção à Pessoa (DHPP).

Confira no vídeo detalhes da prisão do piloto:

Como foi a prisão do piloto

A decisão de efetuar a prisão durante o embarque fez parte de um planejamento detalhado da Polícia Civil para garantir a apreensão de provas e reduzir o risco de reação do investigado. Os agentes avaliaram que aquele seria o momento mais eficaz para a abordagem, diante da possibilidade concreta de o suspeito estar portando dispositivos eletrônicos relevantes para a investigação.

A apuração já estava em estágio avançado quando os policiais optaram por agir. De acordo com a delegada Luciana Peixoto, responsável pelo caso, havia convicção de que o piloto carregaria consigo aparelhos com dados essenciais. Fora daquele contexto, segundo a investigação, aumentava a chance de destruição de material ou ocultação de evidências.

Bastidores da prisão do piloto

A polícia definiu o local da abordagem com base em critérios operacionais, e não pelo impacto. A polícia avaliou que o investigado estaria vulnerável, desprevenido e com acesso imediato aos dispositivos usados para contato com as vítimas. Além disso, a prisão no aeroporto permitiu condução rápida à delegacia, sem deslocamentos prolongados.

Outro elemento considerado foi a rotina do piloto. Ele mantinha residência no interior paulista, mas utilizava um apartamento de apoio em São Paulo nos períodos próximos aos voos. Era justamente nesses intervalos, segundo os investigadores, que ele se encontrava com vítimas e intermediários. A prisão ocorreu quando essas conexões ainda estavam ativas.

A operação também levou em conta o impacto colateral. O piloto foi retirado da aeronave sem interrupção do voo. O copiloto assumiu o comando, e a decolagem ocorreu no horário previsto. A intenção foi preservar passageiros e evitar exposição pública desnecessária.

Estratégia policial e preservação de provas

Nos bastidores, a principal preocupação era a perda de dados. A Polícia Civil já havia identificado que o celular era a principal ferramenta usada para aliciar vítimas, trocar mensagens e armazenar registros. A abordagem surpresa impediu que o investigado tivesse tempo para apagar arquivos ou acionar terceiros.

Após conduzir o piloto à delegacia do aeroporto, a polícia informou seus direitos e, segundo a investigação, obteve a senha dos aparelhos. O acesso autorizado revelou um volume expressivo de material, agora sob perícia, que pode levar à identificação de novas vítimas e outros envolvidos.

A cooperação da companhia aérea foi considerada decisiva. Embora não soubesse inicialmente o teor da apuração, a empresa atendeu às solicitações da polícia e facilitou a execução da operação, o que evitou interferências no planejamento.

Padrão de atuação sob apuração

Diferentemente de casos isolados, a investigação aponta que o esquema se sustentava em relações de confiança prévias, sobretudo com mães e avós. A partir desse contato inicial, o interesse se voltava às crianças e adolescentes, segundo a polícia.

Os pagamentos ocorriam de forma fracionada, via Pix, em valores entre R$ 30 e R$ 100 por imagem. Em outros casos, os repasses assumiam a forma de ajuda material, como compra de medicamentos, pagamento de aluguel e bens domésticos. Para os investigadores, esse padrão indica habitualidade e controle indireto das vítimas.

A diretora do DHPP, delegada Ivalda Aleixo, afirmou que, nos encontros presenciais, havia violência sexual direta. Segundo a investigação, o uso de documentos falsos permitia o deslocamento das vítimas para motéis.

Alcance da investigação e o impacto

Até o momento, a Polícia Civil identificou ao menos dez vítimas em São Paulo, três delas já formalmente reconhecidas no inquérito. O conteúdo apreendido aponta para possíveis vítimas em outros estados, o que ampliou o escopo da apuração.

Além da prisão do piloto, duas mulheres também foram detidas. Uma delas, de 55 anos, é suspeita de intermediar abusos envolvendo as próprias netas. A outra foi presa em flagrante por armazenamento e compartilhamento de material ilícito. Ao todo, a operação cumpriu oito mandados de busca e apreensão. A polícia ainda apura os destinatários do conteúdo, diante de indícios de circulação além do consumo individual.

A Latam Airlines Brasil confirmou a prisão durante o embarque do voo LA3900, informou a abertura de apuração interna e declarou estar à disposição das autoridades. A companhia afirmou repudiar a conduta atribuída ao piloto, enquanto a investigação segue em curso para dimensionar a extensão completa da rede e identificar outros possíveis envolvidos.

Foto de Ramylle Freitas

Ramylle Freitas

Ramylle Freitas é jornalista formada pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN). Atua na cobertura de política e geopolítica no J1, com produção de conteúdos analíticos voltados ao cenário institucional, relações internacionais e dinâmicas de poder. Também colabora com a Abraji (Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo), reforçando o compromisso com apuração rigorosa e checagem de fatos.

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