A greve geral na Argentina, deflagrada nesta quinta-feira (19/02), já impõe um custo estimado em até US$ 600 milhões às vésperas da votação da reforma trabalhista na Câmara dos Deputados. A paralisação interrompeu o transporte público, bloqueou aeroportos, afetou portos estratégicos e atingiu a cadeia de agroexportação, ampliando a pressão sobre o Congresso no dia decisivo para o governo Javier Milei.
Segundo estimativa preliminar do Instituto de Economia da Universidade Argentina da Empresa (UADE) e fontes do Ministério da Economia, o impacto equivale a cerca de 0,8% do PIB de fevereiro. A dimensão financeira desloca o debate do campo ideológico para o cálculo econômico imediato. A discussão, contudo, não se limita aos números fiscais.
Greve geral na Argentina: voos cancelados e aeroportos sob pressão logística
A Câmara de Linhas Aéreas na Argentina (JURCA) informou o cancelamento de mais de 400 voos, afetando mais de 64 mil passageiros. A Aerolíneas Argentinas suspendeu 255 operações e estima prejuízo de US$ 3 milhões. Latam e Gol também alteraram rotas após notificação de sindicatos ligados à Intercargo, responsável pelos serviços de rampa.
As companhias oferecem remarcação ou reembolso sem custo. Ainda assim, a malha aérea nas cidades de Buenos Aires, Córdoba, Mendoza e Rosário opera com restrições. Para além do transtorno imediato, o cenário revela fragilidade na infraestrutura aeroportuária dependente de serviços sindicalizados.
Agroexportação interrompida em polo estratégico
A paralisação marítima de 48 horas suspendeu embarques de grãos e derivados, com reflexos na área portuária de Rosário, um dos principais polos globais de exportação agrícola. A Argentina lidera o comércio mundial de óleo e farelo de soja, o que amplia o alcance externo da crise.
Gustavo Idígoras, presidente da CIARA-CEC, afirmou que a medida “paralisa totalmente as atividades de agroexportação” e classificou o ato como político. Já a Fesimaf declarou que a ação busca defender direitos trabalhistas. O embate, portanto, ultrapassa o transporte urbano.
Greve contra Milei: reforma trabalhista no centro do embate institucional
A reforma, aprovada pelo Senado em 12 de fevereiro, prevê flexibilização de contratos, redução de indenizações por demissão, criação de banco de horas, adoção do chamado salário dinâmico e restrições ao direito de greve. Antes da sessão na Câmara, o governo retirou o Artigo 44, que tratava de redução salarial durante licenças médicas.

A CGT, organizadora da quarta paralisação nacional sob Milei, afirma que a adesão foi ampla. Jorge Sola declarou que trabalhadores de turnos noturnos já haviam deixado seus postos na véspera. O governo, por sua vez, anunciou desconto salarial para servidores que aderirem.
A greve geral na Argentina transforma uma votação legislativa em teste de governabilidade econômica. Com exportações agrícolas suspensas e o setor aéreo afetado, o custo diário amplia o risco de deterioração fiscal e de confiança externa. Se o Congresso mantiver o texto, Milei avança na agenda liberal; se recuar, sinaliza limites políticos para reformas estruturais. O desfecho indicará até onde o Executivo consegue sustentar ajustes em meio à pressão sindical.