Escassez de combustível aprofunda crise econômica em Cuba após sanções dos EUA

A Crise econômica em Cuba se aprofunda com falta de combustível, cancelamento de voos e fechamento de hotéis, enquanto EUA ampliam pressão e governo anuncia racionamento.
Crise econômica em Cuba provoca acúmulo de lixo em rua de Havana
Acúmulo de lixo em bairro de Havana reflete os efeitos da crise econômica em Cuba e da falta de combustível para serviços urbanos. Foto: Anadolu/Getty Images

Após semanas de restrições no fornecimento de petróleo e aumento da pressão diplomática de Washington, a crise econômica em Cuba passou a atingir de forma ampla a economia a partir do dia 8 de fevereiro, quando o governo anunciou falta de combustível de aviação e companhias aéreas começaram a cancelar voos. Desde então, a escassez de diesel e querosene comprometeu a infraestrutura energética, afetou o transporte aéreo e aprofundou a retração do setor turístico, responsável por US$ 1,3 bilhão em divisas em 2024.

Até 1.709 voos podem ser cancelados até abril, segundo a empresa de análise Cirium. Air Canada, WestJet e Transat suspenderam operações. A Rússia, terceiro maior emissor de turistas para a ilha, informou por meio da agência Rosaviatsia que retirará visitantes e interromperá voos até que a escassez seja resolvida.

Escassez de petróleo e pressão de Washington

A restrição energética ocorre após medidas do governo dos Estados Unidos para bloquear o envio de petróleo venezuelano a Cuba. Washington também ameaçou impor tarifas a países que forneçam combustível à ilha, ampliando o cerco diplomático.

A Rússia também figura entre os países que forneceram petróleo à ilha em meio à retração dos envios da Venezuela. No entanto, diante da instabilidade logística e da falta de combustível de aviação anunciada por Havana, Moscou passou a reorganizar rotas comerciais e turísticas. A retirada temporária de visitantes e a revisão de operações indicam que o abastecimento externo permanece insuficiente para sustentar a economia cubana.

Relembre: Rússia enviará petróleo a Cuba em meio a sanções e ameaça de Trump

O presidente Donald Trump declarou na segunda-feira (16/02): “Não há petróleo, não há dinheiro, não há nada”. Durante a Conferência de Segurança de Munique, o secretário de Estado Marco Rubio afirmou que o regime cubano sobreviveu de subsídios externos e disse que o sistema da ilha ficou exposto.

Em resposta, o presidente Miguel Díaz-Canel pediu à população que “resista criativamente” e anunciou racionamento de combustível para priorizar serviços essenciais. O plano inclui economia de energia, ampliação do trabalho remoto e a retomada do conceito de “opção zero”, usado nos anos 1990 para enfrentar escassez extrema.

Consequências da crise econômica em Cuba: paralisação produtiva e pressão social

A crise energética atinge múltiplos setores. A mineradora Sherritt suspendeu operações de níquel e cobalto. Hospitais reduziram atendimentos. O festival anual de charutos Habanos foi cancelado. Redes hoteleiras como a NH fecharam todas as unidades no país, enquanto a espanhola Meliá encerrou três de seus 30 hotéis.

O turismo, que já havia recuado para 1,8 milhão de visitantes em 2025, ante 2,2 milhões no ano anterior, enfrenta nova retração durante a alta temporada de inverno no hemisfério norte. O setor representa cerca de 10% das receitas de exportação do país.

No cotidiano, moradores relatam cortes de energia de até 18 horas. Muitos cozinham com carvão ou lenha. O salário médio de 6.830 pesos cubanos (cerca de US$ 14 no câmbio informal) mal cobre alimentos básicos importados. Parte das empresas privadas suspendeu importações devido à impossibilidade de refrigerar produtos durante apagões prolongados.

Crise econômica em Cuba e comparação histórica

Economistas divergem sobre a gravidade comparativa do momento atual. Michael Bustamante, da Universidade de Miami, lembra que o PIB caiu mais de um terço entre 1991 e 1994. Após a pandemia, a retração estimada é de cerca de 11%. Ainda assim, ele observa que a economia já estava fragilizada antes da atual escassez.

Paolo Spadoni, da Universidade de Augusta, afirmou que um colapso do turismo criaria uma situação insustentável, já que o país depende também de remessas externas e da exportação de serviços médicos para gerar divisas estrangeiras.

O México enviou 800 toneladas de alimentos e prometeu mais 1.500 toneladas como ajuda humanitária. Mesmo assim, a combinação de restrição energética, queda de receitas externas e pressão diplomática mantém a crise econômica em Cuba no centro de uma disputa que mistura energia, política externa e sobrevivência econômica.

Foto de Ramylle Freitas

Ramylle Freitas

Ramylle Freitas é jornalista formada pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN). Atua na cobertura de política e geopolítica no J1, com produção de conteúdos analíticos voltados ao cenário institucional, relações internacionais e dinâmicas de poder. Também colabora com a Abraji (Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo), reforçando o compromisso com apuração rigorosa e checagem de fatos.

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