Pela culatra: tarifaço de Trump pesa mais no próprio país, diz estudo

O tarifaço de Trump acabou pressionando mais a economia dos Estados Unidos do que os países atingidos. Estudo do Fed de Nova York aponta repasse majoritário das tarifas a empresas e consumidores americanos. Saiba mais.
Imagem de Donald Trump, ilustrando tarifaço de Trump
Estudo do Federal Reserve indica que as tarifas elevaram custos dentro dos Estados Unidos e pressionaram empresas e consumidores. (Foto: Reprodução)

Apresentado como uma ofensiva contra exportadores estrangeiros, o tarifaço de Trump acabou trazendo maiores custos para dentro de casa. É o que aponta o estudo do Federal Reserve Bank of New York, a maior filial do banco central dos EUA, que indica que, entre janeiro e agosto de 2025, 94% do impacto das novas tarifas foi absorvido por empresas e consumidores dos próprios Estados Unidos.

Além disso, mesmo após ajustes nas cadeias globais e concessões pontuais, o repasse doméstico permaneceu em torno de 86%. Portanto, em vez de reduzir preços externos de forma relevante, a política de tarifas de Trump elevou custos internos e pressionou a economia americana.

O tarifaço de Trump e o repasse interno

A pesquisa foi conduzida por economistas do Federal Reserve Bank of New York, entre eles Mary Amiti e David E. Weinstein, especialistas em comércio internacional. O estudo comparou variações nos preços de exportação com mudanças nas alíquotas tarifárias, controlando tendências globais e diferenças entre setores.

O resultado foi direto: uma tarifa de 10% reduziu apenas 0,6 ponto percentual nos preços cobrados por exportadores estrangeiros. Ou seja, o ajuste externo foi limitado. A maior parte do encargo permaneceu na economia doméstica, pressionando os preços ao consumidor e os custos industriais.

A escalada ganhou intensidade após 2 de abril, data chamada pela Casa Branca de “Dia da Libertação”, quando a tarifa média de importação saltou de 2,6% para 13%. Embora a taxa efetiva tenha recuado posteriormente, o peso continuou concentrado no mercado interno.

Sobretaxas, indústria e percepção econômica

As tarifas de importação atingiram aço e alumínio com alíquotas de até 50% e passaram a alcançar também bens fabricados com esses metais, como eletrodomésticos. Como esses insumos atravessam a cadeia industrial, o encarecimento chegou ao consumidor.

Segundo o Financial Times, integrantes do Departamento de Comércio reconheceram impacto direto sobre produtos de uso cotidiano. A pressão, portanto, ocorre num momento em que a percepção econômica já se deteriorava. Além disso, levantamentos indicam que mais de 70% dos adultos classificam a economia como regular ou ruim, com pedidos de falência de agricultores avançando em 46%.

Às vésperas das eleições legislativas de novembro de 2025, o governo passou a avaliar a revisão de parte das sobretaxas.

Tarifaço de Trump e a reorganização comercial

O tarifaço de Trump também alterou fluxos comerciais, com deslocamento de fornecedores da China para México e Vietnã. A estratégia buscava reduzir o déficit comercial, mas acabou acelerando a reorganização do comércio internacional.

No Brasil, apesar da tarifa de 50% sobre mais de 2 mil produtos, as exportações alcançaram US$ 348,7 bilhões em 2025, segundo a Secretaria de Comércio Exterior (Secex/MDIC). Além disso, o volume cresceu 5,7%, acima da projeção de 2,4% da Organização Mundial do Comércio para o comércio global.

O vice-presidente Geraldo Alckmin atribuiu o resultado à diversificação de mercados e a novos acordos comerciais, como os recentes envolvendo o Mercosul.

Ao final, o tarifaço de Trump passou a operar como um encargo interno. Ao elevar custos, pressionar cadeias industriais e afetar o custo de vida, a política tarifária transformou-se em tema doméstico central no debate sobre competitividade e poder de compra nos Estados Unidos.

Foto de Moises Freire Neto

Moises Freire Neto

Moisés Freire Neto é jornalista, formado pela Universidade Estadual do Ceará (UECE), com atuação focada em economia, mercado de trabalho, indústria e políticas públicas. Integra as equipes editoriais do J1 e do Economic News Brasil, veículos do Sistema BNTI de Comunicação. Sua produção é voltada à análise de dados, decisões institucionais e impactos econômicos, com abordagem crítica, rigor factual e interesse público.

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