A produtividade no Nordeste apresentou comportamento distinto do restante do país entre 2012 e 2023 e ajudou a reduzir oscilações da economia brasileira, segundo estudo do Centro de Estudos para o Desenvolvimento do Nordeste, da Fundação Getulio Vargas (FGV). A análise considera o Valor Adicionado Bruto por pessoa ocupada (VAB/PO) e cobre um período marcado por recessão doméstica e pandemia.
No intervalo de 11 anos, a produtividade do trabalho no Brasil recuou 0,12%. O Nordeste avançou 0,22%, enquanto o Centro-Oeste cresceu 0,18%. Sudeste (-0,27%), Norte (-0,11%) e Sul (-0,01%) concentraram o viés negativo do indicador, de acordo com os cálculos do Centro de Estudos para o Desenvolvimento do Nordeste, da FGV.
Produtividade no Nordeste sob a ótica da FGV
O estudo identifica dois momentos distintos. Entre 2012 e 2019, fase que inclui a crise econômica de 2015-2016, a produtividade no Nordeste cresceu, ao lado do Centro-Oeste. No mesmo período, Sudeste, Sul e Norte registraram retração do indicador.
Entre 2020 e 2023, já no contexto de recuperação pós-pandemia, ocorreu o movimento inverso. As regiões mais industrializadas avançaram, enquanto Nordeste e Centro-Oeste tiveram queda. Para os pesquisadores, esse padrão reflete diferenças estruturais na composição produtiva regional.
Estrutura econômica, renda e mercado interno
Segundo Christiano Penna, pesquisador da FGV e professor da Universidade Federal do Ceará, a elevada participação de serviços voltados ao mercado interno, combinada com transferências de renda, torna a região menos sensível ao ciclo econômico. No Nordeste, benefícios sociais e pensões representam 32,7% da renda domiciliar, ante 25,1% na média nacional, o que ajuta a explicar produtividade no Nordeste.
O nível absoluto de produtividade, contudo, segue mais baixo. A preços de 2010, o VAB por pessoa ocupada passou de R$ 22,8 mil em 2012 para R$ 23,9 mil em 2023. O valor corresponde a cerca da metade do observado no Centro-Oeste (R$ 47,6 mil) e no Sudeste (R$ 45,3 mil).
Produtividade no Nordeste e os limites do papel estabilizador
A FGV aponta que a produtividade no Nordeste funciona como amortecimento em períodos de retração, mas avança menos nas fases de expansão. Parte dessa dinâmica decorre do chamado efeito realocação, associado à absorção de trabalhadores de menor qualificação, segundo Vitor Miro, também professor da UFC.
Para Flávio Ataliba, coordenador do centro da FGV, esse padrão ajuda a evitar quedas mais acentuadas, mas não reduz a distância regional. Investimentos em infraestrutura, crédito, cadeias produtivas regionais e qualificação da mão de obra aparecem como condição para que a produtividade no Nordeste acompanhe ciclos de crescimento mais intensos.