A exportação de carne para China entrou em alerta nas últimas semanas, depois que o governo reconheceu risco de colapso no setor diante do limite de 1,1 milhão de toneladas imposto por Pequim no início de 2026. Em ofício encaminhado à Câmara de Comércio Exterior (Camex), o Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa) afirmou que, sem coordenação, pode haver queda de preços e impacto no emprego ao longo da cadeia.
Além disso, a medida chinesa estabelece tarifa de 55% sobre qualquer volume que ultrapasse a cota anual. Com isso, a sobretaxa compromete a competitividade internacional da carne bovina brasileira e altera o ritmo dos contratos de embarque. O Brasil divide o enquadramento na salvaguarda com Argentina, Uruguai e Estados Unidos.
Exportação de carne para China sob risco de desorganização
No documento enviado ao governo, o secretário de Comércio e Relações Internacionais do Mapa, Luis Rua, alertou que, na ausência de um mecanismo nacional de administração das vendas externas, pode haver “forte desorganização dos fluxos comerciais”. Portanto, segundo ele, a disputa interna por espaço dentro da cota tende a ampliar o choque negativo na cadeia produtiva da pecuária.
Com base nos dados de 2025, o ministério estima redução de cerca de 35% na demanda chinesa, o equivalente a 600 mil toneladas. Nesse cenário, a exportação de carne para China pode enfrentar pressão nos preços pagos ao produtor. Ao mesmo tempo, parte da produção originalmente destinada ao mercado asiático pode ser redirecionada, o que ampliaria a oferta em outros destinos.
Tarifa de 55% e corrida por cota
A incidência da tarifa cria incentivo para antecipação de contratos por parte dos frigoríficos brasileiros. Dessa forma, grupos como JBS, Minerva e Marfrig, que concentram fatia relevante das vendas ao mercado asiático, podem ocupar rapidamente a maior parcela da cota disponível. Isso levanta preocupação sobre eventual concentração das autorizações.
Por outro lado, dados do Ministério do Desenvolvimento indicam que, em janeiro, a China importou 123,2 mil toneladas do Brasil, alta de 35% ante o mesmo mês do ano anterior. Ainda assim, interlocutores do setor afirmam que não é possível medir quanto da cota de 1,1 milhão de toneladas já foi efetivamente utilizada, uma vez que parte da carga foi embarcada antes da aplicação formal da salvaguarda.
Exportação de carne para China e proposta de controle
Diante desse cenário, o Mapa defende a criação de um sistema nacional de cotas. A proposta prevê distribuição proporcional ao histórico recente de vendas e, além disso, reserva técnica para novos e pequenos exportadores, por meio de licenças de exportação com bloqueio automático de excedentes.
O Comitê Executivo de Gestão da Camex (Gecex) deve analisar o tema. Enquanto isso, o Ministério do Desenvolvimento informou que a proposta segue sob análise técnica e que o governo mantém diálogo com Pequim. Em 28 de janeiro, o vice-presidente Geraldo Alckmin conversou com o vice-presidente chinês Han Zheng sobre as sobretaxas comerciais.
Assim, a exportação de carne para China, principal destino da proteína bovina brasileira, passa a depender da forma como o governo administrará o limite externo. A definição do modelo de distribuição poderá alterar o equilíbrio entre grandes empresas e exportadores emergentes ao longo de 2026. Especialmente em um cenário de demanda mais contida.