Parceria entre Brasil e Índia destaca terras raras como eixo estratégico internacional

O acordo entre Brasil e Índia busca reduzir a dependência chinesa em terras raras, ampliar processamento industrial e reposicionar os dois países na cadeia global de minerais críticos. Saiba mais.
Foto do presidente Lula se reúne com o Primeiro-Ministro da República da Índia, Narendra Modii, que firmarão novo acordo entre Brasil e Índia envolvendo terras raras
Lula viaja para Nova Déli para participar de eventos e estabelecer novos acordos comerciais com o país, entre eles o que envolve terras raras (Foto: Ricardo Stuckert/PR)

Um acordo entre Brasil e Índia deve ser assinado durante a viagem do presidente Luiz Inácio Lula da Silva a Nova Déli para se encontrar com o primeiro-ministro Narendra Moditerá. A viagem, entre outras coisas, terá como foco a cooperação em terras raras e minerais críticos. A iniciativa ocorre em meio à tentativa dos dois países de reduzir a dependência chinesa na cadeia global de processamento desses insumos estratégicos.

Brasil e Índia figuram entre os países com maiores reservas desses insumos estratégicos, importantes para fabricação de componentes eletrônicos vitais. Ainda assim, ambos têm baixa capacidade de processamento mineral, etapa industrial que concentra valor e tecnologia. Hoje, Pequim controla cerca de 70% das reservas globais e aproximadamente 90% da capacidade mundial de refino.

Acordo entre Brasil e Índia e a disputa industrial

O acordo entre Brasil e Índia ocorre em meio a uma disputa comercial que ganhou força após a China ampliar, em outubro passado, o controle sobre exportações de produtos com terras raras. A medida exigia autorização prévia para envio ao exterior, afetando setores como indústria automotiva, semicondutores, aviação e defesa.

Embora a restrição tenha durado cerca de um mês, o episódio expôs a vulnerabilidade das cadeias globais. Desde então, líderes como o presidente norte-americano Donald Trump intensificaram tratativas bilaterais para diversificar fornecedores e reduzir riscos industriais.

Segundo o geólogo Maurício Carvalho, vice-presidente da Associação Brasileira de Minerais Críticos e diretor executivo da Meteoric, o Brasil já mantém entendimentos avançados com a União Europeia e avança com os Estados Unidos. Ele afirma, portanto, que o acordo entre Brasil e Índia deve priorizar o processamento em território brasileiro.

Cooperação mineral e estratégia asiática

Além do memorando bilateral, a visita inclui debates sobre inteligência artificial, agronegócio e abertura de mercados. No campo mineral, a empresa indiana Altmin anunciou investimento de R$ 220 milhões na Companhia Brasileira de Lítio. Reforçando, portanto, a integração na cadeia de baterias elétricas.

A Índia também estruturou um plano nacional para o setor. Em janeiro, o governo publicou diretrizes que preveem um corredor integrado de mineração. Além de pesquisa e manufatura, com orçamento inicial de US$ 870 milhões. A meta, portanto, é dobrar a demanda doméstica por terras raras até 2030.

Acordo entre Brasil e Índia no redesenho da cadeia global

O acordo entre Brasil e Índia se insere em uma estratégia mais ampla de reconfiguração das cadeias de fornecimento de insumos estratégicos ligados à transição energética. Países com reservas buscam sair da condição de exportadores de minério bruto e capturar etapas de maior valor agregado.

Ao priorizar o processamento e ampliar parcerias tecnológicas, o acordo entre Brasil e Índia sinaliza uma tentativa de reposicionamento industrial. Em um cenário de competição comercial e busca por autonomia produtiva, o sucesso dependerá menos das reservas e mais da capacidade de transformar terras raras em tecnologia.

Foto de Moises Freire Neto

Moises Freire Neto

Moisés Freire Neto é jornalista, formado pela Universidade Estadual do Ceará (UECE), com atuação focada em economia, mercado de trabalho, indústria e políticas públicas. Integra as equipes editoriais do J1 e do Economic News Brasil, veículos do Sistema BNTI de Comunicação. Sua produção é voltada à análise de dados, decisões institucionais e impactos econômicos, com abordagem crítica, rigor factual e interesse público.

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