Brasil questiona acordo comercial entre Argentina e EUA e aponta risco às regras do Mercosul

O acordo comercial entre Argentina e EUA passou a ser questionado pelo Brasil por possível conflito com as regras do Mercosul. Divergências sobre exceções tarifárias e normas regulatórias podem levar o tema ao Conselho do bloco nas próximas semanas. Continue lendo e saiba mais.
Trump e Milei em encontro que firmou o acordo entre Argentina e EUA em análise no Mercosul
Governo brasileiro avalia efeitos do acordo entre Argentina e EUA sobre as regras do Mercosul. (Foto: Reprodução)

O acordo comercial entre Argentina e EUA anunciado na última sexta-feira (06/06) passou a ser analisado pelo governo brasileiro por possíveis incompatibilidades com as regras do Mercosul. A avaliação ocorre após a divulgação do documento por Washington, que despertou dúvidas sobre o alcance do pacto.

Diplomatas brasileiros fazem uma leitura técnica do texto para identificar se o entendimento bilateral ultrapassa os limites permitidos pelo bloco. Segundo fontes próximas, a análise inicial sugere que o escopo pode ir além das exceções aceitas.

Acordo entre Argentina e EUA sob as regras do Mercosul

O Mercosul impõe restrições a acordos individuais com países fora do bloco como forma de preservar a negociação conjunta. As normas, porém, limitam concessões tarifárias e impõem regras comuns para bens, serviços e aspectos regulatórios.

Em 2025, diante do cenário comercial internacional mais pressionado, o bloco autorizou uma ampliação temporária das exceções à Tarifa Externa Comum. Na ocasião, Brasil e Argentina receberam autorização para até 150 exceções, enquanto Uruguai e Paraguai tiveram cotas maiores.

O governo argentino sustenta que o acordo comercial com os EUA respeita esse limite. E que, além disso, as reduções tarifárias anunciadas estão dentro da lista de exceções concedida ao país.

Divergência de números e entraves regulatórios

Autoridades brasileiras, porém, indicam que o acordo comercial entre Argentina e EUA pode abranger cerca de 200 itens, número superior ao teto autorizado. Essa diferença, portanto, é o principal ponto de tensão na análise conduzida pelo Itamaraty.

Além das tarifas, técnicos avaliam possíveis conflitos em áreas não tarifárias. Regras de origem do Mercosul, comércio de serviços e barreiras técnicas integram o conjunto de normas que podem ser afetadas por um pacto bilateral amplo.

Além disso, o alinhamento político do presidente argentino Javier Milei com o ex-presidente dos EUA Donald Trump também pesa no diagnóstico. Por conta disso, diplomatas avaliam que negociações conduzidas de forma unilateral dificultam o enquadramento do acordo dentro das exceções vigentes.

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Resposta institucional ao acordo entre Argentina e EUA e próximos passos

Se a avaliação concluir que houve descumprimento das regras, o Brasil pode solicitar a convocação do Conselho do Mercosul. A instância reúne os países-membros e decide, por consenso, como o bloco deve reagir.

O chanceler argentino Pablo Quirno declarou que o Mercosul não impede seus integrantes de firmar acordos desse tipo. Segundo ele, partes do entendimento poderiam avançar por decreto, embora um pacto mais amplo dependa da aprovação do Congresso argentino.

A próxima cúpula do bloco está marcada para o fim de junho, em Assunção, quando o Paraguai transferirá a presidência rotativa ao Uruguai. Até lá, o acordo entre Argentina e EUA deve seguir no centro das discussões sobre os limites institucionais do Mercosul.

Saiba mais sobre esse acordo bilateral na matéria feita pelo Economic News Brasil.

Foto de Moises Freire Neto

Moises Freire Neto

Moisés Freire Neto é jornalista, formado pela Universidade Estadual do Ceará (UECE), com atuação focada em economia, mercado de trabalho, indústria e políticas públicas. Integra as equipes editoriais do J1 e do Economic News Brasil, veículos do Sistema BNTI de Comunicação. Sua produção é voltada à análise de dados, decisões institucionais e impactos econômicos, com abordagem crítica, rigor factual e interesse público.

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