PF apura desvios no Programa Farmácia Popular em esquema interestadual

Programa Farmácia Popular é alvo de operação da PF em quatro estados. O esquema usava farmácias e CPFs de terceiros para gerar reembolsos indevidos, com prejuízo estimado de até R$ 30 milhões.
Atendimento do Programa Farmácia Popular em farmácia credenciada no Brasil
Farmácia credenciada ao Programa Farmácia Popular realiza atendimento a usuária durante funcionamento do balcão de medicamentos. Foto: Rodrigo Nunes/MS

Na manhã desta terça-feira (10/02), o Programa Farmácia Popular entrou no foco de uma operação conjunta da Polícia Federal, da Receita Federal e da Controladoria-Geral da União. A ação cumpriu mandados de busca e apreensão em quatro estados e apura um esquema que pode ter causado prejuízo de até R$ 30 milhões aos cofres públicos.

As diligências ocorreram em Carazinho, no Rio Grande do Sul, além de endereços em João Pessoa, na Paraíba, Lagoa Santa, em Minas Gerais, e Pirangi, em São Paulo. A apuração teve início em 2023, após uma cidadã denunciar o uso indevido de seu CPF em uma suposta compra de medicamento vinculada ao Programa Farmácia Popular em uma farmácia do Mato Grosso do Sul.

Segundo os órgãos envolvidos, a denúncia individual levou ao cruzamento de dados dos sistemas federais que controlam os repasses do programa. A partir dessa análise, investigadores identificaram indícios de uma organização criminosa com atuação em diferentes regiões do país.

A Receita Federal informou que o caso revelou um padrão de uso irregular de dados pessoais, com registros de vendas inexistentes lançadas no sistema oficial. Para os investigadores, esse método permitiu acessar recursos do Fundo Nacional de Saúde sem a entrega real de medicamentos aos beneficiários cadastrados.

Funcionamento do esquema e desvios financeiros

Os desvios associados ao Programa Farmácia Popular operavam a partir da aquisição de CNPJs de farmácias já credenciadas. Após a transferência da titularidade para pessoas usadas como laranjas, os estabelecimentos passaram a registrar vendas fictícias de milhares de medicamentos.

As análises fiscais indicaram que, mesmo após perderem a regularidade tributária e deixarem de operar fisicamente, essas farmácias continuaram recebendo repasses públicos. Uma amostra financeira examinada pela Receita identificou desvios de cerca de R$ 9 milhões, valor que sustenta a estimativa mais ampla de até R$ 30 milhões.

A investigação também mapeou intensa circulação de recursos entre os estabelecimentos, com saques em lotéricas e pagamentos de boletos bancários. Para a PF, essa estratégia buscava dificultar o rastreamento do dinheiro e ocultar o beneficiário final, inclusive uma liderança apontada como articuladora do esquema.

Em nota, a Receita Federal afirmou que seguirá adotando medidas fiscais, administrativas e penais conforme o avanço das apurações. O caso amplia a pressão por ajustes nos mecanismos de controle do Programa Farmácia Popular. Desvios dessa natureza afetam a execução da política pública e a credibilidade do gasto federal em saúde.

Foto de Ramylle Freitas

Ramylle Freitas

Ramylle Freitas é jornalista formada pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN). Atua na cobertura de política e geopolítica no J1, com produção de conteúdos analíticos voltados ao cenário institucional, relações internacionais e dinâmicas de poder. Também colabora com a Abraji (Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo), reforçando o compromisso com apuração rigorosa e checagem de fatos.

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