A Reag divulgou balanços de fundos de carbono que indicavam patrimônio combinado próximo de R$ 45 bilhões, embora o lastro dependesse de créditos ambientais sem validade jurídica. A empresa, liquidada pelo Banco Central em 15 de janeiro deste ano por fraudes ligadas ao Master, publicou as demonstrações financeiras em 2025, mesmo após alertas técnicos e administrativos sobre problemas na origem fundiária dos ativos.
De acordo com os documentos, esses fundos controlavam empresas de carbono e descreviam o patrimônio como composto exclusivamente por ativos ambientais. As, então, chamadas Unidades de Estoque de Carbono (UECs). Cada unidade corresponderia a uma tonelada de carbono preservada por ano em área associada à Fazenda Floresta Amazônica, em Apuí (AM), posteriormente enquadrada como área pública ocupada de forma irregular.
Fundos de carbono da Reag e a base patrimonial declarada
Nos balanços analisados, a Global Carbon aparecia com patrimônio declarado de R$ 13 bilhões, enquanto a Golden Green informava R$ 31 bilhões. As duas estruturas estavam vinculadas a uma cadeia de fundos sob gestão ligada à Reag, incluindo Régia, New Jade 2, Jade FIP e Jaya FIP.
Os documentos financeiros indicavam que o valor dessas empresas decorria exclusivamente das UECs, sem menção a receitas operacionais relevantes. No caso da Global Carbon, uma consultoria especializada estimou o valor justo em R$ 31 bilhões, conforme registrado nas demonstrações.
Com isso, fundos de carbono da Reag passaram a figurar com escala patrimonial semelhante à de grandes grupos privados brasileiros, apesar de a base dos ativos depender diretamente da regularidade jurídica da área onde os créditos ambientais teriam sido gerados.
Créditos ambientais, terra pública e alertas técnicos
A Fazenda Floresta Amazônica teve 68% de sua área sobreposta ao Projeto de Assentamento Agroextrativista Aripuanã-Guariba. Em agosto de 2024, o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) cancelou a matrícula do imóvel, o que inviabilizou a geração de créditos de carbono a partir daquela área.
Relatório da KPMG, de junho de 2023, já apontava sobreposição de áreas registradas em bases do Incra e a necessidade de regularização cartorial. Mesmo assim, os ativos permaneceram registrados nos balanços, sem baixa ou ressalva destacada nas auditorias posteriores, segundo os documentos consultados.
A Unesp, citada como referência metodológica do projeto, divulgou nota afirmando que não firmou contratos nem autorizou o uso de seu nome. Também surgiram questionamentos sobre a custódia de ativos. Uma vez que não ficou claro o registro que garantiria rastreabilidade e circulação confiável das UECs no mercado financeiro.
Fundos de carbono da Reag sob escrutínio institucional
Mesmo após os envolvidos comunicarem a irregularidade fundiária, a Reag publicou balanços de 2024 sem ajustar o valor dos ativos ambientais ligados aos fundos de carbono. A legislação brasileira veda a divulgação de informações falsas ou incompletas por instituições que administram recursos de terceiros, ponto mencionado na apuração.
A Comissão de Valores Mobiliários afirmou que não comenta casos específicos. Auditorias e administradores preferiram não se manifestar, citando confidencialidade. Em paralelo, houve tentativa de estruturar um novo projeto de carbono dentro do assentamento para substituir os ativos questionados, mas o Incra cancelou o plano após a publicação da reportagem.
O episódio ampliou o debate sobre compliance, risco regulatório e credibilidade do mercado de carbono no Brasil. Nesse contexto, os fundos de carbono da Reag são citados como um caso emblemático de desalinhamento entre governança financeira e lastro ambiental.