Depoimento do diretor do Banco Central expõe inconsistências no caso Master

O Depoimento do diretor do Banco Central detalha inconsistências técnicas, ausência de fluxos financeiros e a fragilidade de liquidez que antecedeu a liquidação do Banco Master.
Depoimento do diretor do Banco Central, Ailton Aquino, durante oitiva sobre o caso Banco Master
Ailton Aquino, diretor de Fiscalização do Banco Central, em depoimento à Polícia Federal posteriormente tornado público por decisão do STF. Foto: Raphael Ribeiro/BC

O diretor de Fiscalização do Banco Central, Ailton Aquino, afirmou que a autarquia não identificou movimentação financeira capaz de justificar a geração de R$ 6,2 bilhões atribuída à empresa Tirreno no caso Master. A declaração consta do depoimento do diretor do Banco Central, prestado à Polícia Federal em 30 de dezembro e tornado público na quinta-feira (29/01) por decisão do ministro Dias Toffoli, do Supremo Tribunal Federal (STF).

Segundo o diretor, a análise se baseou em bases operacionais que concentram registros obrigatórios do sistema financeiro. Pix, transferências eletrônicas disponíveis (TED) e operações de câmbio passam pelo Banco Central. Ainda assim, não houve identificação de fluxos compatíveis com os valores apresentados durante a apuração.

Depoimento do diretor do Banco Central e a análise técnica

No depoimento, Aquino descreveu reunião registrada em sua agenda pública com representantes da Carto e da Tirreno. Durante o encontro, os valores inicialmente mencionados variaram entre R$ 30 milhões e R$ 50 milhões, segundo o diretor. Ao longo do questionamento técnico, os números cresceram gradualmente até alcançar R$ 6,2 bilhões.

Para o Banco Central, essa evolução compromete a consistência do relato. Diretores da Carto, conforme Aquino, afirmaram não conhecer a Tirreno. Ao final da reunião, a declaração de geração bilionária foi classificada pelo diretor como inviável sob critérios técnicos do sistema financeiro.

O depoimento do diretor do Banco Central também destacou que o único relacionamento da Tirreno no Sistema Financeiro Nacional ocorreu com o Banco Master, iniciado em 23/05/2025. Não foram identificados vínculos com outras instituições, nem registros operacionais que sustentassem a versão apresentada pelo controlador do banco.

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Fragilidade de liquidez e leitura da supervisão

Além das inconsistências atribuídas à Tirreno, o depoimento abordou a situação financeira do Banco Master antes da liquidação extrajudicial. Classificado como instituição S3, de médio porte, o banco possuía R$ 80 bilhões em ativos totais, mas mantinha apenas R$ 4 milhões em caixa, segundo a fiscalização.

Aquino explicou que instituições com esse perfil exigem acompanhamento próximo da supervisão, especialmente em cenários de pressão de liquidez. A discrepância entre porte e recursos disponíveis reforçou a avaliação interna de risco elevado, considerada na decisão que levou ao encerramento das atividades em novembro.

Essa leitura foi corroborada por análise externa. Para o economista Carlos Eduardo de Freitas, ex-diretor do próprio Banco Central, bancos sem tradição consolidada devem operar com colchão de liquidez superior ao de instituições mais estabelecidas, mesmo com estrutura semelhante de passivos.

Depoimento do diretor do Banco Central e o efeito no conglomerado

O depoimento do diretor do Banco Central também tratou dos desdobramentos no conglomerado financeiro ligado ao Master. Aquino relatou dificuldades recorrentes de pagamento da Will Financeira, conhecida como Will Bank, que já estava sob Regime de Administração Especial Temporária (Raet).

O Banco Central buscou preservar a operação para evitar efeitos sistêmicos e permitir uma eventual venda a investidor estrangeiro. A estratégia, contudo, não avançou. O descumprimento da grade de pagamentos com a Mastercard agravou a situação e levou à liquidação extrajudicial da instituição cerca de dois meses depois.

O conjunto das informações tornadas públicas pelo STF reposiciona o debate institucional sobre o caso. Ao detalhar critérios técnicos, limites operacionais e fragilidades de liquidez, o depoimento do diretor do Banco Central consolida a atuação da supervisão como eixo central na leitura regulatória do episódio.

Foto de Ramylle Freitas

Ramylle Freitas

Ramylle Freitas é jornalista formada pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN). Atua na cobertura de política e geopolítica no J1, com produção de conteúdos analíticos voltados ao cenário institucional, relações internacionais e dinâmicas de poder. Também colabora com a Abraji (Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo), reforçando o compromisso com apuração rigorosa e checagem de fatos.

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