As operações agressivas do ICE (Immigration and Customs Enforcement) passaram a influenciar diretamente o debate político em Washington após a morte do enfermeiro Alex Pretti, de 37 anos, baleado por agentes federais em Minneapolis no sábado (24/01). O orçamento federal dos Estados Unidos (EUA) já estava em negociação e sob resistência no Senado, mas o episódio levou parlamentares a anunciar, de forma pública, que bloquearão o texto caso o financiamento da agência seja mantido.
O pacote de financiamento do governo expira em 31 de janeiro e inclui recursos para o Departamento de Segurança Interna (Department of Homeland Security – DHS), órgão ao qual o Serviço de Imigração e Alfândega ICE está subordinado. Até o fim da semana passada, as conversas seguiam abertas, ainda que marcadas por atritos. Após a morte do enfermeiro, o ambiente político mudou de patamar.
Operações agressivas do ICE como gatilho político
Pretti morreu durante uma ofensiva federal ampliada em Minneapolis, cidade governada por democratas. Milhares de agentes federais foram enviados para ações de imigração. Foi o segundo caso em menos de três semanas. Em janeiro, Renee Good, moradora da cidade, também foi morta por um agente federal.
Antes do episódio do fim de semana, senadores democratas já pressionavam por ajustes no texto orçamentário. Eles também cobravam mais controle sobre a atuação do ICE. Após o tiroteio, parlamentares que ainda negociavam passaram a declarar voto contra o pacote. A oposição permanece enquanto o financiamento da agência estiver incluído.
O líder da minoria no Senado, Chuck Schumer, disse que o Senado não reunirá votos suficientes para avançar com o projeto enquanto os recursos do DHS não forem revistos. Outros senadores classificaram a conduta dos agentes federais como incompatível com qualquer liberação de verbas, consolidando o bloqueio político.
Orçamento federal já em disputa entra em bloqueio declarado
O Senado dos Estados Unidos reúne 100 membros e exige 60 votos para superar manobras de obstrução. Apesar da maioria republicana, o governo depende do apoio democrata para aprovar projetos de gastos. O pacote aprovado pela Câmara prevê US$ 64,4 bilhões para o DHS, incluindo US$ 10 bilhões destinados ao ICE, e já enfrentava objeções antes da morte do enfermeiro.
O episódio em Minneapolis não criou o impasse, mas redefiniu seus limites. A resistência existente se transformou em ameaça formal de bloqueio. Mesmo após a rejeição do pedido de Donald Trump por mais recursos, senadores avaliam que o texto ignora a gravidade das operações agressivas do ICE.
Diante desse cenário, senadores republicanos passaram a discutir a possibilidade de separar o financiamento da segurança interna do restante do orçamento, que inclui verbas para Defesa, diplomacia, saúde, educação e transporte. A presidente do Comitê de Orçamento, Susan Collins, afirmou analisar alternativas para preservar partes consideradas vitais do pacote.
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Operações agressivas do ICE e tensão federativa
Além do bloqueio no Congresso, a morte de Pretti ampliou o atrito entre autoridades federais e o governo de Minnesota. O governador Tim Walz pediu a retirada dos agentes federais da cidade, enquanto o chefe da polícia de Minneapolis afirmou que forças federais impediram o acesso estadual ao local do tiroteio, mesmo diante de mandado judicial.
Autoridades locais e a família do enfermeiro contestam a versão apresentada pelo governo federal. Segundo esses relatos, Pretti possuía arma legalmente registrada, não a empunhava no momento dos disparos e não tinha antecedentes criminais além de infrações de trânsito.
Enquanto Trump defende a atuação do ICE e pressiona pelo fim das chamadas cidades-santuário, o Congresso permanece travado. A morte do fim de semana não inaugurou a crise orçamentária, mas passou a condicioná-la. A partir desse ponto, as operações agressivas do ICE deixaram de ser apenas um tema de política migratória e passaram a pesar diretamente sobre a governabilidade dos Estados Unidos.